Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

Pirilampo 16

16. O Sr. Ministro referiu expressamente que o modelo dual (uma força policial civil e outra militar) é para manter, porque é aquele que melhor se adapta à realidade portuguesa.
publicado por Zé Guita às 12:11
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11 comentários:
De Guarda Abel a 14 de Fevereiro de 2007 às 16:14
Muito se tem escrito ao procurar justificar o sistema dual de forças de Segurança. Invariavelmente, procura-se justificar a componente militar do sistema como uma mais-valia, uma vez que essa força teria uma melhor capacidade para assegurar todo o leque de missões (polivalência) e a sua distribuição territorial ser mais abrangente. Estes são os argumentos mais invocados, para além do argumento histórico-tradicional.
Aqui chegados, importa alertar para duas questões prévias: estamos a falar de «sistema» e portanto será avisado ter algum conhecimento sobre os postulados da teoria sistémica. Por outro lado, falamos de força e capacidade, o que remete para a área abrangente da ciência política e do pensamento estratégico.
Ou seja, segundo os que defendem a manutenção da actual configuração do sistema de segurança interna, a força militar é uma componente versátil e que contribui decisivamente para a eficiência global do sistema, sendo também identificada, por alguns, com uma espécie de interface entre sistemas complementares (Segurança Interna e Defesa).
O problema é que ainda ninguém conseguiu demonstrar o valor quantitativo de cada força na configuração do sistema de segurança interna para, com base em indicadores, se dizer qual o potencial relativo de cada força.
Um axioma da teoria geral dos sistemas refere que um sistema, para se conservar e ser eficiente e estável, é necessário que os seus componentes tenham um máximo de diferenciação funcional, ou seja que o seu contributo para o processamento dos respectivos «outputs» seja distinto dos demais componentes sistémicos.
Em Portugal, porém, as duas componentes encontram-se praticamente indiferenciadas em termos de contributo funcional, sendo as diferenças que as distinguem, nesse aspecto, pouco relevantes. Portanto, o que diz a teoria geral dos sistemas é que se for mantida esta indiferenciação funcional haverá sérios riscos do sistema entrar em entropia. Daí as recorrentes disfunções que são assinaladas. Resolvê-las através de intervenções que não atacam a raiz do problema, ou seja através da atribuição de áreas territoriais de actuação, é adiar o que de profundo se exige para a estabilidade e eficiência do sistema – diferenciação funcional.
Não confundir funções das componentes do sistema com as suas características identitárias. Aqui chegados, entramos no campo obscuro dos mitos e de uma pretensa legitimidade histórica para conservar um sistema que já não responde satisfatoriamente, mas no qual também não se ousa mexer em nome da tradição. Porque o problema está no que cada componente tem para fazer e não no modo como internamente está organizada em termos de padrões ou de cultura organizacional.
Não creio que o decisor político vá no sentido de diferenciar funcionalmente as componentes sistémicas, alterando-lhes substancialmente as missões ou retirando missões de uma força para dar a outra (os lóbies corporativos são fortíssimos) segundo o critério da máxima de diferenciação funcional. Portanto, cedo ou tarde a opção de fusão estará em discussão.


De Zé Guita a 16 de Fevereiro de 2007 às 16:32
Caro Guarda Abel
Não duvido de que cedo ou tarde algumas cabeças se inclinem para a discussão da fusão. Aparentemente, é uma solução linear. Receio porém que se metam numa grande confusão.
Continuo a rezar para que os interessados na questão não deixem de analisar com cuidado as 662 páginas do livro de Van Outrive, por mim referido nos posts Tempo de Vésperas III, IV e V do Securitas (LA NOUVELLE POLICE BELGE- Désorganisation et improvisacion), agora também referido com ênfase na Toca do Túlio. Faço Notar que Van Outrive, além de professor e investigador sobre matérias de polícia, é publicamente indicado na net como deputado europeu pelo grupo socialista.


De Zé Guita a 15 de Fevereiro de 2007 às 12:14
Caro Guarda Abel
O seu comentário tem muito sumo. Não posso deixar de meter uma "colherada".
Aceitando o seu enunciado de argumentos justificativos, constata-se ainda que o dualismo policial se mantém como um sistema: vigoroso em França com a Gendarmeria, vivo em Itáia com os Carabinieri e na Holanda com a Marechausse, e actuante em Espanha.
Por que será assim? Acaso se trata de sociedades não democráticas? ou avessas à modernidade? ou são Estados distraídos quanto ao futuro?
Factos: são sociedades modernas, culturalmente vigorosas. Não deixam de promover a evolução dos seus corpos militares de polícia, nem parece que coloquem em perigo a sobrevivência de tais instituições.
Efectivamente nelas pesa bastante a tradição. Mas a tradição é um cimento da cultura e o homem é não apenas um produtor de cultura mas também um portador de cultura.
Mesmo almejando a modernidade e a inovação, não parece adequado ter medo da tradição. E as sociedades não vivem apenas em função da teoria sistémica, pois são constituídas por pessoas, por grupos, por instituições, com dinâmicas próprias. Há que ter em conta a teoria sistémica, estou de acordo, mas não posso deixar esquecer que também está formulada e demonstrada a teoria da instituição.
Nem todos dentro de uma instituição estão sempre de acordo, sendo compreensível que a tradição não tenha peso específico sobretudo para aqueles que não assumam a pertença institucional. Mas o "normal" é que as pessoas se unam em defesa da instituição quando sobre ela se esbocem ameaças.
Quanto ao caso de não estar demonstrado o valor quantitativo de cada força, creio ser possível contra argumentar que é ainda mais indemonstrável o valor quantitativo de inovações apressadas ou apenas parcialmente avaliadas.
Não pretende o Zé Guita com isto desvalorizar as suas preocupações de natureza sistémica ou estratégica ou política, que têm lugar, mas tão somente colocar em evidência que "há mais vida" para além delas...
Para que não fiquem dúvidas, esclareço que sou ferveroso adepto da interdisciplinaridade.
Cumprimentos.



De Guarda Abel a 15 de Fevereiro de 2007 às 15:49
Caro Zé Guita,
Em primeiro lugar não pretendo defender opções, porque não sou político. O meu olhar procura ser neutro dentro do campo científico. Gosto de interrogar, questionar e examinar. Estimula-me o debate de ideias mais do que formar convicções. Procuro ver para além das falsas evidências.
É certo que os métodos em ciência não são completamente seguros, mas podem ser constantemente aperfeiçoados. E o que é igualmente importante, é a existência de uma tradição de crítica, que obriga ao aperfeiçoamento sempre que se descobrem defeitos e seja onde for que se descubram defeitos. Os próprios métodos da ciência, tal como tudo o que existe, são objecto do escrutínio científico, transformando-se os métodos em metodologia, a análise dos métodos. A metodologia, por seu turno, fica debaixo do olhar da epistemologia, a investigação da própria investigação – com efeito, não há nada que escape ao questionamento científico.
Decididamente, a Verdade pode magoar…
Isto não quer dizer que as suas certeiras observações sejam falsa evidências, longe disso. Têm muita pertinência e substância. São fruto de reflexão e de preocupação perante factos inquietantes e que dizem respeito ao futuro e à viabilidade de uma instituição que é fundamental para a manutenção de um Estado, que cada vez é mais exíguo…
Porém, inquieta-me a situação a que chegou o sistema policial português e os dilemas que persistem quando se procuram soluções.
Inquieta-me a inércia da instituição GNR e a sua incapacidade de se adaptar e de sobreviver perante os ataques de que tem sido alvo.
Inquieta-me o facto de muitos militares não se reverem na instituição, ao ponto de querem deixar de ser militares (isto deveria, só por si, merecer um estudo sociológico no sentido de procurar as inerentes causas).
Creio que o único caminho para a GNR se tornar viável é, sobretudo, apostar na diferenciação ou, se quisermos, na especialização de funções, as quais deverá procurar exercer em exclusivo e, sobretudo, apostar na valorização dos seus recursos humanos, a sua massa crítica. (coisa que não tem sido feita, muito pelo contrário…)
No entanto, o civilismo tem ganho terreno e é essa a ideologia do poder dominante.
Combater uma ideologia, como sabe, é algo difícil, nomeadamente quando o campo discursivo e simbólico privilegia um certo olhar sobre a realidade. É tudo uma questão de escolhas…
Recorrendo à analogia de S: Huntington, quando descreve que os países que se encontram nos eixos de fractura entre duas civilizações são países dilacerados (Ucrânia e Turquia), porque estão permanentemente no dilema de escolher a qual das civilizações querem pertencer, a Guarda é, também, uma instituição dilacerada…
O «dilaceramento» tem a ver, creio, com os seguintes dilemas:
Transformar-se numa «Guarda Nacional» e assumir as missões de interesse público das FA e a defesa territorial, resvalando para o campo da Defesa Nacional (Opção 4º Ramo), ficando sem missões policiais, salvo em casos excepcionais em que terá de assumir o papel de força de reserva?
Transformar-se numa Polícia rural, encaixando-se nos nichos de actividade não disputados pela PSP, o que lhe garante, desde logo, a sua permanência e individualidade no Sistema de Segurança interna?
Disputar com a PSP a afectação exclusiva de competências próprias no domínio da Segurança interna, procurando equilíbrios e compromissos, mas que não resolve a questão da diferenciação funcional, pois terá de competir com a PSP, no sentido de ser capaz de oferecer um melhor produto operacional?
Será, por conseguinte, uma questão de marketing e de resultados tangíveis.
No entanto, a GNR terá que admitir uma progressiva «civilinização», abdicando de aspectos da sua cultura organizacional e depurando outros que importa manter, mas adaptados à sua própria realidade. Trata-se, com efeito, de salvar o que há a salvar na putativa matriz militar. (e aqui reside a importância do estudo sociológico sobre as causas que fazem afastar os militares da GNR na adesão à condição militar tout court)
Os militares da GNR, nomeadamente as chefias, estão esclarecidas sobre o que se encontra de facto em jogo?
Saudações do Abel


De Guarda Abel a 19 de Fevereiro de 2007 às 16:33
Algumas considerações históricas sobre o sistema policial



Na presente análise (breve e despretensiosa) procuro tecer algumas observações sobre o sentido evolutivo do sistema policial português. Julgo que há tentativas sérias que procuram alterar e romper com o paradigma napoleónico, no qual tem assentado o nosso sistema de Segurança Interna.
É fundamental perceber as razões e as causas. A história pode ser uma boa ferramenta metodológica, desde que se evita usá-la como «exemplo» ou apologética justificativa e muito menos procurar Leis que nos indique o sentido do devir colectivo.
Sou daqueles que considera que os factos histórico-sociais devem ser objecto de reflexão desapaixonada, mas também refuto veementemente a tentação do historicismo.
Deixemos, pois, falar a memória político-institucional e através dela tentar perceber os possíveis itinerários de mudança que se encontram disponíveis nestes tempos de encruzilhada a que alguns chamam metaforicamente de vésperas. Tempos serão: de oportunidades se as soubermos aproveitar ou de amarga derrota se não tivermos sageza e capacidade de tomarmos nas nossas mãos o destino da instituição.
Nota: não pretendo, nem nunca pretendi, defender teses ou opções. Apenas tenho procurado contribuir com algumas reflexões provocatórias (no sentido de provocação intelectual, portanto no bom sentido da palavra).
Às vezes, posso fazer de «advogado do diabo», mas o exercício do contrafactual é indispensável se quisermos ter argumentos sólidos que sejam levados a sério.


Parto das seguintes hipóteses:

1. O poder político sempre desenhou o Sistema de Segurança Interna (SSI) de acordo com a necessidade básica de se «defender» e «justificar» “manu militar”.
2. O poder político instituído, durante os últimos 200 anos, não era legitimado democraticamente, logo necessitava de um mecanismo de força coerciva para se justificar e conseguir estabilidade governativa. Portanto, a questão da confiança nos elementos sistémicos do SSI para com o poder instituindo sempre foi a prioridade na arquitectura dos diversos modelos, ou seja a importância das forças que componham o sistema era directamente proporcional à lealdade que devotavam ao poder político que serviam.
3. O SSI representou um aparelho de forças com carácter ideológico-repressivo, que tinha por objectivo garantir e possibilitar o exercício do poder político.
4. A concepção democrática de poder e o inerente afeiçoamento do SSI aos valores políticos do estado de direito democrático (e à ideologia que lhe garante a legitimidade assente na soberania popular) é uma realidade histórica muito recente e que corta substancialmente com a tendência passada. Assiste-se, pela primeira vez, a uma ruptura na continuidade da tendência pretoriana que tem sido inerente à arquitectura do SSI.
5. O poder político, pós 25 Abril, desconfia dos militares e receia o seu poder, indo ao ponto de procurar dispensar o aparelho repressivo armado, organizado e tutelado pela classe militar.
6. Como forma de afirmação da classe política, pós 25 Abril, esta procura formas inovadoras de legitimar a actividade policial, sendo o seu discurso assente na ideologia do civilismo. Os militares não devem imiscuir-se na segurança interna, porque já não são necessários para que o poder político possa governar.

Final do Regime absolutista e instituição do Liberalismo

A Guarda Real de Polícia é a força leal ao poder régio absolutista. A Guarda Real de Polícia funcionava como braço armado da polícia de informação de Pina Manique que desesperadamente lutava contra as ideias liberais subversivas. É uma guarda pretoriana que defende o regime até às ultimas consequências, intervindo activamente na causa miguelista. Com o triunfo do movimento liberal é extinta. Nestes tempos o exército é também usado como força policial, nomeadamente na província.


(Continua se o Zé Guita quiser)


De Zé Guita a 19 de Fevereiro de 2007 às 19:54
O Zé Guita está sequioso e não será o único a ter sede...


De Guarda Abel a 21 de Fevereiro de 2007 às 15:59
(Continuação)

O regime liberal esboçou um SSI baseado em Guardas Municipais e numa força com carácter nacional, a Guarda Nacional, inspirada no ideário «jacobino» da Revolução Francesa. As Guardas Municipais não vingaram, porque o Cartismo (direita) era avesso ao municipalismo setembrista (esquerda). Só permaneceram as Guardas de Lisboa e Porto, que lentamente se transformaram em verdadeiras «Guardas reais». Com efeito, o centralismo autoritário do Cabralismo (direita), inspirado no modelo de administração pública napoleónica, moldou o SSI de modo a defender os interesses do poder real consubstanciados na Carta. A Guarda Nacional foi dissolvida por ser uma força Setembrista (esquerda) e que não estava sob o controlo do governo leal à coroa. Com a Regeneração, assiste-se à estabilização da vida política, que se centra no parlamento e que aceita o poder «auto-limitado» e moderador do monarca, em detrimento da crónica instabilidade produzida pelas facções políticas e respectivas forças militares que lhes estavam afectas. Aparece a Polícia cívica. O Exército é ainda usado como força policial, nomeadamente na província e é encarado como força de reserva do SSI.


Final da monarquia constitucional

A Guarda Municipal e a Polícia cívica são prodigamente usadas na contenção e repressão do republicanismo. O republicanismo foi um fenómeno essencialmente urbano (operário e de pequena burguesia) e contava com uma organização subversiva que será decisiva para a vitória do 5 de Outubro – a Carbonária – espécie de braço armado do partido republicano.

Primeira República

A República não teve a adesão dos altos cargos do Exército (uns eram monárquicos e assim continuaram, outros transformaram-se em «adesivos»). Porque não confiava no Exército (foi a Marinha e a Carbonária que implantaram a república), o regime republicano teve de criar uma força que fosse o seu garante e ao mesmo tempo tivesse capacidade para impor a ordem republicana a todo o território nacional (rural e monárquico).
A Guarda Municipal, que foi a única força que se opôs aos revoltosos da Rotunda, foi extinta e em seu lugar é criada uma nova força composta por elementos devotamente leais à causa da República. Brito Camacho é o seu mentor (Capitão médico expulso do exército pelo envolvimento no 31 de Janeiro, recria a ideia Setembrista de uma Guarda Nacional). O Exército deixa de ser usado como força policial. A GNR distingue-se na luta contra as invasões monárquicas de Paiva Couceiro e na asfixia da «Monárquica do Norte». O partido democrático de Afonso Costa (esquerda) arma a GNR, a fim de esta ser o contra-poder ao Exército e anular as forças políticas que se lhe opunham. A preponderância da GNR, como força armada do Partido Democrático, é tal que faz e desfaz executivos. A «noite sangrenta» é pretexto para desarmar a GNR, que tinha ficado fora de controlo, mas abre oportunidade para o Exército finalmente poder intervir politicamente com o golpe de 28MAI26.
As diversas reestruturações operadas pelo regime republicano na então Direcção Geral de Segurança Pública, que funcionava na dependência do Ministério do Interior e superintendia todos os serviços policiais e de segurança a nível nacional (Polícia Cívica, Polícia de Investigação Criminal, Polícia Preventiva e de Segurança do Estado, Polícia Administrativa, Polícia Municipal e Polícia de Emigração) dão posteriormente origem à actual PSP e PJ.
(Continua)


De Guarda Abel a 21 de Fevereiro de 2007 às 17:03
(Continuação2)

O Estado Novo

O regime criado por Salazar é tutelado pelas Forças Armadas. São as FA que garantem a existência do regime autoritário.
O aparelho repressivo compreendia várias organizações, todas definidas como corporações militarizadas. A GNR para controlar as zonas rurais e a PSP para dispersar reuniões e manifestações. Aos poucos, a Legião deixa de ser utilizada como corpo com funções de polícia. Todas as organizações policiais eram chefiadas por oficiais do exército (PIDE, GNR, GF, PSP, etc).
A articulação e a acentuada militarização do SSI foram a marca distintiva que o Estado Novo impôs no modelo. Uma das consequências do investimento nestas forças de polícia era a de reduzir a dependência do Exército no que se referia às tarefas de repressão política mais comuns. Há que duvidar se mesmo a força mais bem equipada entre estas seria capaz ou propensa a resistir a um golpe de mão do Exército contra o regime, mas em duas ocasiões, perante a ameaça de possíveis rebeliões, os ministros, e até Salazar, encontraram refúgio nos quartéis-generais da Legião e da GNR.
A partir da década de 50, GNR e PSP entram em nítido processo de convergência organizacional, mercê da militarização da PSP. Ambas as forças encontravam-se organizadas e enquadradas nos mesmos moldes.
Em 25ABR74, a rendição do Estado Novo é feita no Quartel do Carmo.

II República

Nos tempos do PREC esboça-se uma tentativa de fusão. Há planos para a criação de uma Polícia Nacional, que juntaria GNR e PSP, organizada em moldes militares, mas após cada força estar previamente depurada dos “elementos reaccionários”. Foi um projecto essencialmente gonçalvista e que procurava colocar as forças de segurança na mão do partido comunista.
A estabilização do regime, após 25NOV75, faz-se com o retorno dos militares a quartéis: a primeira alteração à CRP, desmilitariza-a e desmarxiza-a.
O poder político (civil) está ciente dos “ensinamentos” da história político-institucional e separa as águas: Segurança interna (actividade policial) e Defesa nacional (actividade militar).
As Forças de segurança deixam de ter papel na repressão político-ideológica. Integradas na administração pública, a Constituição atribui-lhes funções de defender a legalidade democrática e garantir a segurança interna e os direitos dos cidadãos.
Pela primeira vez, em 200 anos, o poder político encontra uma «fórmula de poder», a legitimidade democrática, que dispensa o contributo de militares na imposição da ordem.
Com o colapso do mundo bipolar, o progressivo apaziguamento ideológico e a adesão à UE, a população portuguesa deixa de percepcionar ameaças e tem dificuldade em perceber a razão para a existência da instituição militar.
Assiste-se à emergência do primado da nova ideologia organizativa para o funcionamento institucional das Forças de segurança – civilismo – que impõe um novo conceito de organização para as polícias. A PSP é desmilitarizada.
Sobra a GNR, que é uma Força de segurança organizada em moldes militares e continua a ser superiormente comandada por Generais do Exército.

(continua)


De Guarda Abel a 21 de Fevereiro de 2007 às 17:04
(continuação 3)

Tendências, permanências e continuidades:

Cada regime político tem o seu SSI que lhe garante a respectiva ordem social (legitimada segundo a sua fórmula de poder).
Em momentos de forte instabilidade política, o «design» do SSI tem em conta a necessidade de forças musculadas.
Verifica-se uma tensão aparente entre «monismo» e «dualismo».
Houve momentos em que o sistema, embora formalmente dual, foi essencialmente monista (paradoxo da convergências nas culturas organizacionais).
Os projectos monistas são agendados de acordo com objectivos políticos concretos.
Quando o sistema está «dualmente estabilizado», uma das forças é politicamente preponderante relativamente à sua antagonista sistémica.
Há uma tensão permanente entre fragmentar e unificar em termos organização e distribuição territorial.
Consta-se que, estruturalmente, há um balanceamento entre do Exército e a força musculada do SSI, no papel de «força de reserva» do próprio sistema.
Com a efectiva democratização da vida política, o poder militar deixa de ser o factor crítico na estabilidade institucional. Por consequência, a classe militar perde status e poder, enquanto grupo social de elite.
Nos últimos anos, a ideologia do civilismo impôs-se como arquétipo.

As heranças tanto se aceitam como se repudiam. Importa decidir, mas de forma esclarecida…


De Vigilante a 20 de Fevereiro de 2007 às 19:55
Caro Guarda Abel,

li os seus posts e felicitou-o pelos pontos deixados para reflexão. No entanto, em qualquer ciência a objectividade das pesquisas e das conclusões é uma realidade. Procura-se conhecer de forma científica a realidade para a podermos alterar no sentido que a história procura para a Humanidade. Não percebo porque complica tanto o seu discurso e não objectiva mais as suas ideias, quero dizer: afinal defende o sistema dual ou não? A GNR é uma força importante para o actual contexto social ou não?
Apesar de não ser político defende que a criação de uma força policial única potenciaria o sistema de forças policiais?
Por último, não esqueça que a história se repete!!! Já no passado as forças policiais foram criadas porque os Exércitos não sabiam lidar como as novas conjunturas sociais emergentes e actualmente passa-se o mesmo, daí que o Governo queira civilizar mas sem perder mãos de obra barata. Veja-se: qual cidadão serviria tanto por tão pouco!!! Refiro-me a vencimentos econdições degradantes de trabalho. Quem quer abdicar de uma força que parece estar pronta para tudo. Por outro lado, as FA procuram desesperadamente justificar a sua existência!!! Até já fazem manutenção da ordem pública e diga-se que por essa Europa fora também é uma verdade inquestionável!!!
No entanto, tal como o Abel também gosto mais de questionar do que ser formatado pelos discursos enviesados. É pena que as forças de segurança sejam dominadas por yes men que as destróiem.
Até breve e não perca o seu espírito crítico.


De Guarda Abel a 21 de Fevereiro de 2007 às 16:33
Caro Vigilante,


Deixe-me expressar que estou de acordo consigo quando refere que a GNR é mão-de-obra barata. Portanto, a GNR é uma força importante para o actual contexto social (marcada pela obsessão do défice) e também é e será uma instituição fundamental para o nosso sistema policial, desde que saiba adaptar-se à conjuntura que lhe é adversa. E nisso vai ter que fazer escolhas (se calhar algumas muito dolorosas, porque foram irresponsavelmente adiadas. A instituição não soube reformar-se, antes esperou que viessem de fora reformá-la)
Relativamente à «vexatio questio» que foi colocada – o sistema dual: sim ou não? – é precisamente o que ando à procura de resposta.
Creio que tive oportunidade de indicar algumas pistas para a viabilidade do sistema dual: atribuições funcionais exclusivas.
Determinar opções no que importa manter na matriz e na condição militar.
Assumpção de uma identidade própria dentro da tal matriz militar, mas devidamente adaptada a uma Força de segurança. Ou seja, nem postura conservadora nem niilismo.
Reinvente-se a GNR neste paradigma policial pós-moderno…
Atentamente


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