Terça-feira, 12 de Junho de 2007

Comentário a Texto de LUÍS ALVES DE FRAGA sobre a GNR

Ao deambular hoje na blogosfera, aterrei no Fio de Prumo e deparei com o post intitulado “As Quatro Estrelas”. (luisalvesdefraga.blogs.sapo.pt/)

            Não querendo discutir alguns aspectos do texto, que recuso abordar aligeiradamente e considero estarem para além da minha competência imediata, sinto-me, no entanto, obrigado a comentar certos pontos do mesmo.

            Deixando para outros a discussão sobre conceitos sólidos de Defesa Nacional e de Forças Armadas, que não me atrevo a discutir, pela parte que me toca – enquanto pertencente de corpo e alma à GNR e interessado no estudo de assuntos que lhe sejam próximos – não se me colocam dúvidas sobre se a Guarda deve ser admitida como membro das Forças Armadas de Portugal. Sabendo embora  que há quem, a título individual e altamente minoritário, sonhe com tal hipótese, estou convicto de que tal desígnio não existe na instituição “corpo militar de polícia”, nem na profissão “guarda”, nem na organização “GNR”. Além disto, penso que caso tal caminho fosse tentado poderia ser interpretado como uma forma de militarismo (perversão do poder militar) e provocaria rejeição na actual sociedade civil, designadamente a nível político.

            Passando ao lado daquilo que é referido como “barreira deontológica” impeditiva da integração da Guarda nas FA, deixo apenas o apontamento de que na GNR convivem a ética militar e a deontologia (profissional) da função polícia. Sem constituírem propriamente barreiras, adequam-se à vivência e às circunstâncias operacionais que justificam a designação legal de “corpo especial de tropas”.

            Dado que sou leigo em astronomia e a astrologia é demasiado subjectiva, não me encontro abalizado para tratar assuntos de estrelas. Modesto sapateiro, não quero “ir além da chinela”, mas sempre vou interrogando os meus botões: -- Será que quem contraria a “quarta estrela” prefere ver no seu lugar um director nacional civil?!

            Quanto à evidência referida de que a GNR não deve ser considerada uma força militar, confesso que a vislumbro bastante confusa e nada evidente. Os exemplos citados dos Carabinieri italianos e da Guarda Civil espanhola não pesam sozinhos: são acompanhados pela Gendarmeria francesa, pela Marechaussee holandesa, pelos BGS alemães, por outros corpos europeus, mas também pela Polícia Montada canadiana, pelas Polícias Militares brasileiras e por tantos outros corpos na América do Sul e em África e na Turquia. Estou completamente de acordo em sermos portugueses e preservarmos as nossas especificidades. Mas não podemos ignorar que há mais mundo.

            No que toca aos conceitos de militar, militarizado e para-militar muita tinta tem corrido e vai continuar a espalhar-se. Certo é que a GNR, na realidade social, não é civil e, na abordagem jurídica, é um corpo especial de tropas e os seus membros têm condição militar.

            São vários os pontos do texto com os quais concordo e este comentário, que já vai longo, é feito no melhor espírito, não tendo outra intenção que não seja uma saudável e escorreita troca de ideias. Para possibilitar argumentação mais alargada e fundamentada sobre a GNR – enquanto Corpo Militar de Polícia, Gendarmeria, Terceira Força – sugiro que passe pelo meu blog, analise e critique textos ali presentes sobre a matéria. O contraditório é bem aceite. Aliás, com muito gosto, coloquei o Fio de Prumo na lista de links do Securitas.

 

Saudações do Zé Guita (http://www.securitas.blogs.sapo.pt)

sinto-me: desafiado.
publicado por Zé Guita às 21:53
link do post | comentar | favorito
|
10 comentários:
De poleao a 13 de Junho de 2007 às 00:16
Um comentário muito limpo, muito escorreito, como é apanágio do Zé Guita, sobre um texto, no mínimo, insidioso.
Abraço.


De Luís Alves de Fraga a 13 de Junho de 2007 às 10:49
Por falta de espaço tenho de dividir o meu comentário em dois.
Espero que fique compreensível.

Caro Senhor,
Antes do mais agradeço-lhe a passagem pelo «Fio de Prumo».
Por norma não tenho o hábito de dar resposta aos comentários que são deixados no meu blog; quero-o uma tribuna onde, segundo os critérios por mim definidos – que são de ampla abertura – cada qual deixe a sua opinião e seja dela tão responsável como eu sou da minha. Não admito, nem aceito provocações, porque, também não as cultivo!
Vou tentar dar resposta a alguns dos pontos que achou discutíveis ou, até, controversos. Inventario-os, primeiro, para deixar o meu ponto de vista em seguida.
“GNR como força não militar”, “ética militar e deontologia policial na GNR”, “a GNR como corpo especial de tropas”, “quarta estrela vs director nacional civil”, “conceitos de militar, militarizado e para-militar”.
Vamos, então, pela mesma ordem.
A GNR é, desde sempre, por definição e por atribuição de funções, uma força essencialmente policial destinada a garantir a ordem, a segurança e paz internas. Creio que isto é indiscutível. Está, por conseguinte, virada para a defesa interna. Por definição, por tradição e por vocação, as forças armadas estão viradas para a defesa externa. Excepcionalmente a GNR pode ser chamada a colaborar em certo tipo de missões viradas para a acção exterior, tal como as forças armadas podem reforçar o dispositivo da defesa e segurança internas em situações de excepção. Assim, a excepção não pode (não deve) ser tomada como regra.
Para compreender a GNR como força militar e não força policial é preciso fazer o recuo histórico e chegar às Guardas Municipais das quais a GNR foi herdeira. Deste modo, no século XIX aquelas Guardas eram constituídas, na sua máxima força, por militares permanentes (ou praças em regime de readmissão) oriundas do Exército. As Guardas constituíam uma “primeira linha” do exército vocacionado para a repressão interna. Nem a República e muito menos o Estado Novo alterou este conceito, pelo contrário, reforçaram-no e, não foram raras as vezes, em que o Exército foi chamado a colaborar com a GNR na reposição da ordem interna. Nessa altura e nesse contexto, fazia todo o sentido que a GNR fosse uma força militar, porque não estavam separadas as áreas de actuação das forças armadas e das forças policiais. Os tempos evoluíram e os conceitos também. Hoje há uma clara separação do que é ordem interna e ordem externa (ainda que o fenómeno “terrorismo” tenha trazido para a ordem interna o inimigo externo). Deste modo, só o peso da tradição e as conveniências corporativas do Exército arrastaram unido, por anos excessivos, aquilo que devia estar separado há muito tempo, pois que nem a formação, nem a vocação dos oficiais do Exército está virada para a repressão interna nem para a manutenção da ordem nesse domínio.


De Luís Alves de Fraga a 13 de Junho de 2007 às 10:52
A conjugação actual, na GNR, da ética militar com a deontologia policial resulta, afinal, do quadro que anteriormente tracei. Mas note que não sei como pode conviver pacificamente com a sua consciência um oficial do Exército – preparado para defender a Pátria dos seus inimigos (que supostamente não são seus concidadãos) – quando é confrontado com a necessidade de fazer uma carga policial sobre civis (seus concidadãos) que supostamente alteram a ordem pública! As polícias fazem-no, sem rebates nem problemas de consciência, porque têm de ter, por formação específica, um entendimento do uso da força em favor da colectividade e da ordem colectiva. Misturar as duas coisas é perigoso, porque, às duas por três, se pode instituir um Estado policial ou um Estado militarizado – situações que, em si mesmas, são pouco consentâneas com o Estado democrático.
A GNR como corpo especial de tropas continua a ser assim chamada em consequência do quadro já antes abordado. Em boa verdade a GNR poderá ser um corpo especial de polícia, com características específicas e modos de actuação específicos. Corpo de tropas só pode resultar de uma distorção de um passado em que se confundiram duas missões que em si mesmas eram distintas, como aliás já disse.
Não advogo um director nacional civil, mas também não defendo um general do Exército. Aceito que, de acordo com um estatuto próprio e um sistema de graduações apropriado, o comandante-geral da GNR seja um membro da corporação que atinja o mais elevado posto da mesma, acabando, de uma vez por todas, com a presente situação “promíscua” de um oficial (ou vários) do Exército a comandar a corporação.
Para ser rápido, esclareço que guardo a designação de militar para os membros das forças armadas, militarizado para as corporações que se regem por princípios iguais ou semelhantes aos dos militares, embora com elementos distintivos e paramilitar reservo para as corporações cujo comportamento profissional é paralelo ao da corporação militar (daí o sufixo “para”, de paralelo). A GNR, na perspectiva da legitimidade (não da legalidade) e na da deontologia militar é, no presente momento, uma corporação militarizada; se se desligar em absoluto dos laços que a prendem ao Exército e estabelecer a sua própria idiossincrasia passará a ser uma corporação paramilitar .
Que compreenda e aceite a minha explicação, quem quiser.
Os meus cumprimentos


De guarda ricardo a 13 de Junho de 2007 às 17:46
Sr Fraga
Sem querer entrar em polémica sempre lhe vou dizer o seguinte: Uma leitura rápida dos seus escritos leva-me a pensar que o Sr. por qualquer motivo não conseguiu vir para a
guarda e dá toda a sua má vontade e os argumentos distorcidos que usa contra o facto dela ser militar. É por força dos seus estatutos e toda a legislação vigente quer o sr goste ou não. E assim vai e deve continuar. Se está incomodado por a guarda efectuar acções militares no exterior e não se incomoda com o facto do exército actuar como policia no estrangeiro com a agravante que usa material emprestado pela guarda. E pergunto. Estará o exercito preparado para este tipo de missões? E o que me diz ao facto da Gendarmerie francesa fazer parte da FA e depender do Ministério da Defesa Francês? Também concordo que deve haver uma separação do exercito continuando a vigorar o actual estatuto. E que assim acabavam-se as promoções aceleradas com a colocação dos oficiais do exercito. A quarta estrela não me parece que seja fulcral. Eventualmente por uma questão de protocolo para não ficar em desvantagem com os directores gerais. Para denegrir a guarda já há que cheguem.


De Zé Guita a 14 de Junho de 2007 às 13:35
Sr Luís Alves de Fraga

Antes de mais, tenho alguma dificuldade em entender a razão de ser do seu aviso de que "não admito nem aceito provocações, também não as cultivo". Parece-me sentir uma certa crispação, que não vejo justificada. Interrogando-me sobre culpa minha, apenas vislumbro como hipótese o facto de eu ter posto algum humor no meu fraseado. De qualquer modo, asseguro-lhe autenticidade e a devida consideração na minha postura.
Sobre a obsessão do 4º ramo, dado que já antes clarifiquei o meu entendimento, não vou gastar mais cera... No entanto, sempre anoto: compreendo que tenha "critérios por mim definidos" mas, ao afirmar "que compreenda e aceite quem quiser", parece não estar aberto para uma discussão clarificadora. Quero crer que seja má interpretação da minha parte.
Saudações


De Zé Guita a 14 de Junho de 2007 às 23:56
Sr Luís Alves de Fraga

A partir da sua “tribuna”, esclareceu-nos que guarda a designação “militar” apenas para as Forças Armadas. É uma opinião respeitável, mas discutível. O respeito pela dúvida metódica leva-me a também ter em conta critério diferente, internacionalmente acatado e vigente na ordem jurídica nacional.
De entre a sua argumentação respigo que considera a GNR desde sempre uma força essencialmente policial. Ainda bem, estamos de acordo. Se quiser analisar o meu ponto de vista sobre a matéria pode, por exemplo, consultar aqui no Securitas os posts de 02/03/04 de Abril passado "GNR- força militar porquê”, nos quais comento o artigo do senhor general Loureiro dos Santos, “Guarda Nacional Republicana - força militar porquê”, publicado no jornal Público de 30 de Março.
Note que procuro conceber a GNR como sendo um “corpo militar de polícia”, pretendendo significar que a mesma tem natureza militar e função policial. Quanto a ser “corpo especial de tropas”, como diz a Lei, ou “corpo especial de polícia”, como sugere o sr Fraga, parece-me aplicável a figura da garrafa “meio cheia ou meio vazia”.
Para bem compreender a GNR é indispensável introduzir conceitos e teoria, como “corpos militares de polícia”, “dualidade policial”, e “especificidade gendármica ”, cuja análise sugiro à sua boa vontade procurar nos posts de 16/17/23 de Março passado.
Saudações


De Guarda Abel a 21 de Junho de 2007 às 15:08
« Monismo e dualismo no Sistema de Segurança Interna»
Ao longo do século XIX, após a implementação do liberalismo, o modelo legal ambicionado para organizar as Forças de Segurança seria de natureza dual se atendermos à disposição das forças ao nível territorial – um corpo de âmbito nacional e vários corpos de natureza local; porém, monogenético no que respeita à organização interna dos corpos de segurança, porque havia unidade na sua origem, dado que todas as forças eram militares ou estavam organizadas em obediência aos princípios militares. Este modelo legal não prevaleceu em virtude das dinâmicas históricas que não cumpre aqui analisar. O corpo de âmbito nacional (Guarda Nacional) desapareceu, no seu lugar ficou o Exército. As forças de âmbito local não se desenvolveram, apenas vingaram em Lisboa e no Porto com a Guarda Municipal. O restante território ficou policiado pelo Exército e nas capitais de distrito desenvolveu-se uma componente tardia que escapa à lógica inicial: as polícias civis, com os seus comissários e cabos de esquadra. (Refira-se que as «Guardas Municipais» eram inadequadamente denominadas como «Municipais», porquanto não estavam ao serviço dos municípios nem deles dependiam no que respeita ao seu enquadramento legal e dependência orgânica. A «Guarda Municipal», circunscrita a Lisboa e Porto, transformou-se paulatinamente numa verdadeira «Guarda Real», em tudo análoga às «Guardas Reais» absolutistas, embora tenha sido colocada ao serviço do regime monárquico constitucional).
No século XX, o regime Republicano saído da Revolução de 5 de Outubro tem claramente uma opção monista para o sistema de forças cuja missão é garantir a ordem pública. A Força em causa seria a GNR, que assim viria a ocupar o espaço deixado vago pelo dispositivo de forças de ordem pública herdadas do regime monárquico constitucional. O Exército, que era a componente de âmbito nacional do anterior sistema, deixa de desempenhar missões de natureza policial. As componentes locais são igualmente substituídas, quer sejam militares ou civis. A aposta é numa única força, a GNR, cujo desenvolvimento posterior vai abarca a vertente policial e militar, chegando ao ponto desta se pretender substituir ao Exército.
Por conseguinte, a República recriou o paradigma da «Guarda Nacional». O seu programa reformador para as Forças de Segurança é ambicioso e denota a preocupação de estender a todo o território nacional a nova ordem através de uma única instituição que fosse fiel aos princípios do republicanismo. O novo corpo militar de segurança absorve a extinta Guarda Municipal, que por ser a força militar de ordem pública do regime monárquico teve de ser desmantelada. A Guarda Nacional Republicana substitui nas circunscrições distritais os corpos de polícia civil, que seriam progressivamente extintos, passando igualmente a desempenhar funções de polícia rural. Por fim, o Exército deixa de ser utilizado nas tarefas de manutenção da ordem pública, porque nessa função aparece a Guarda Nacional Republicana, “corpo especial de tropas para velar pela segurança públicas e particulares em todo o país”.


De Guarda Abel a 21 de Junho de 2007 às 15:10
(Continuação)
Com os tempos conturbados da I República, o sistema de segurança interna é sobretudo um campo em que se confrontam interesses e ambições políticas. Sarmento Pimentel, num artigo publicado em 1924, na Seara Nova, esboçou um quadro crítico a propósito do “problema da ordem pública”, notando que a política interna à época era invariavelmente marcada por esta questão, conclui pela necessidade de “organizar a força pública, remodelar todos os serviços dando-lhes coesão, ordem, prestígio, autoridade, separando as missões que a cada um dos seus elementos constitutivos pertence”.
Ao procurar distinguir o conteúdo funcional das forças que tinham competência para a defesa da ordem, Sarmento Pimentel referia que à Polícia deveria caber um papel exclusivo de “investigação, informação e manutenção”. Quanto ao Exército este serviria para a Guerra e na “Paz a sua missão consiste na preparação de todos os elementos para a Guerra”, porque o «Exército polícia» e o «Exército político» são “a negação completa da sua alta missão para com a Pátria”.
A hegemonia da GNR vai relançar a questão. As opções posteriores, a fim de contrabalançar a “Guarda Pretoriana da I República”, apostaram no desenvolvimento de outra Força de manutenção de ordem pública a partir dos corpos distritais de polícia cívica – a PSP. Todavia, o Exército tinha uma palavra a dizer como instituição militar de suporte ao regime que sucede à I República – o «Estado Novo». Será o Exército a instituição modeladora que tutelará as Forças de Segurança. Não importa se estas, para o efeito, forem «civis» ou «militares». A concepção será ditada por quem as vai comandar. Estando as estruturas de comando entregues a oficiais do Exército no activo, logicamente que a oligarquia militar vai impor os modelos de funcionamento institucionais que julgasse apropriados para servir os seus interesses. Deste modo, as Forças de Segurança organizar-se-ão em moldes militares, ficando encostadas ao Exército e ligadas, por esse facto, ao foro militar. Para esse efeito, o corpo civil «militariza-se», desenvolve-se e projecta-se a partir das capitais de distrito. O corpo militar de segurança, a GNR, abandona a preponderância que detinha, como única força de segurança do sistema concebido pela I República, mas expande as suas actividades ao Portugal profundo, levando consigo a ordem do «Estado Novo» aos recantos mais afastados do país, assumido inequivocamente o papel de «polícia rural» e de força de reserva. (Realça-se que a Constituição de 1933, conferia aos militares responsabilidades acrescidas nos aspectos relacionados com a segurança interna. Atendendo ao texto constitucional verifica-se que o Estado tinha como objectivo, nos termos do artº 53º, assegurar “a existência e o prestígio das instituições militares (...) exigidas pelas supremas necessidades de defesa da integridade nacional e da manutenção da ordem e da paz pública”)
Apesar de formalmente dual, o sistema padecia do «vício» monista que o caracterizara desde o início, porque as duas principais forças estavam, de facto, convergindo em termos organizacionais. E isto por quê? Porque lentamente a PSP, e inclusivamente a sua antecessora, a Polícia Cívica, começara a organizar-se segundo o modelo militar, ainda que fosse designada civil. Com o passar do tempo e se nada detivesse este processo de militarização em curso na componente civil do sistema, a distinção entre as duas forças policiais seria meramente formal, porque os «índices típicos da instituição militar» estariam cada vez mais presentes nas duas instituições encarregues de assegurar a ordem pública.
Com a Revolução de 1974 esboça-se da parte de alguns sectores militares uma tentativa de fusão das duas Forças de Segurança. O projecto monista para a organização do dispositivo policial português é, uma vez mais, colocado na ordem do dia. Já em 1970, com a extinção da Polícia de Viação e Trânsito, por Marcelo Caetano, (e tentativas de o mesmo acontecer à Guarda Fiscal) havia sinais de que a GNR pudesse vir a ser a instituição policial que absorveria todas as outras em homenagem ao monismo, enquanto modelo de organização do dispositivo de Forças de Segurança.


De Guarda Abel a 21 de Junho de 2007 às 15:12
(Continuação)
Por outro lado, aparentemente, havia uma convergência real entre as duas Forças de Segurança em termos cultura organizacional, o que facilitaria a concretização do projecto, uma vez que a «força civil» estava militarizada e a «força militar» não precisaria de sofrer neste aspecto qualquer tipo de intervenção. Com efeito, atendendo aos vínculos de sujeição orgânica que na altura vigorava quer para a Policia de Segurança Pública quer para a GNR, verificava-se em ambos os casos o respectivo enquadramento militar, uma vez que aquelas corporações se estruturavam, recrutavam, formavam e comandavam superiormente da mesma forma. Podemos supor que o modelo militar de organização seria o adoptado pelo futuro corpo nacional de manutenção de ordem pública. Este projecto foi abandonado.
Por fim realça-se que o «Movimento dos Capitães», expressava as suas opiniões sobre o comando das polícias da seguinte forma: “São numerosos os oficiais que, seduzidos por regalias de diversa ordem, passam a prestar serviço em corpos policiais, continuando a ser oficiais e a ser promovidos pelo ramo a que pertencem e a ele regressando posteriormente. Considera o Movimento que essa situação é inadmissível e que antes de ingressar em corpos policiais qualquer militar deve pedir a sua demissão e deixar de ter direito ao tratamento pelo posto que tinha nas Forças Armadas”. Opinião ainda mais acintosa era professada por um oficial que a propósito da situação expressava: “urgência de rever o serviço dos oficiais do exército e marinha como governadores de distrito, comandantes de portos, oficiais da PSP, GNR (com ressalva para QEO e milicianos), Guarda Fiscal e até mocidade Portuguesa. Não cremos que a Polícia ou os organismos citados façam parte do naipe de vocações do oficial. Claro que esta posição se insere, no fundo, nos casos de venalidade, pouco zelo profissional, etc, que podem ser abordados, não apenas de um prisma ideológico, mas tendo em conta as implicações de ordem material”.
Respeitosamente Abel


De Guarda Abel a 21 de Junho de 2007 às 15:22
Ainda a propósito de monismo e dualismo

Julgamos que esta questão merece ser analisada também à luz das ideias da centralização e descentralização administrativa que se inscrevem na tradição política do século XIX e na evolução administrativa do Estado liberal até à actualidade, na qual é possível descortinar ciclos de centralização e descentralização das respectivas estruturas administrativas incluindo as organizações policiais. Com efeito, a Constituição de 1822 viria a estabelecer o primado da divisão de poderes entre as magistraturas judiciais e administrativas. Neste sentido, a reforma encetada em 1834 por Mouzinho da Silveira, explicitamente inspirada na administração francesa, procurou, pela via regulamentar, adaptar a organização do sistema administrativo do país às concepções liberais centralizadoras. A facção «vintista» imporá, por sua vez, o Código Administrativo de 1836, da autoria de Passos Manuel, no qual a centralização inspirada no modelo napoleónico é mitigada em favor do reforço do «municipalismo». A reacção a esta situação culminou na restauração da Carta Constitucional, em 1842, e na aprovação de legislação que inverteu o ciclo descentralizador, ao reforçar a influência do poder central e impondo um controlo apertado às câmaras municipais. Referendado por Costa Cabral, o Código Administrativo de 1842 haveria de vigorar até 1872. A democracia, que se tentara implementar nas instituições municipais, cede então lugar a uma apertada tutela do poder central sobre os corpos administrativos periféricos. Viver-se-ia um período de maior autoridade do poder central na esteira do modelo previsto em 1832. De certa forma, o traço distintivo da evolução do sistema administrativo português será o confronto entre o respeito pelo espaço próprio do município ou da região, que foi defendido pela esquerda e por sectores da direita liberal em oposição às concepções políticas de cariz autoritário e conservador que se exprimiram ao longo do Século XIX e XX.
Saudações


Comentar post

.mais sobre mim: ver "Zé Guita quem é"

.pesquisar

 

.Janeiro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

23
24
25
26
27
28

30
31


.posts recentes

. COMPETIÇÃO OU COOPERAÇÃO ...

. DESORGANIZAÇÃO E DESORDEM

. DIA DA INDEPENDÊNCIA NACI...

. A SOCIEDADE ESPECTÁCULO

. ECONOMICISMO, OPINIÕES E ...

. LEITURAS - 2ª Edição

. APROXIMAÇÃO À MATRIZ

. MAIS QUESTÕES CANDENTES

. LEITURAS!!!

. QUESTÕES CANDENTES

.arquivos

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

.tags

. todas as tags

.links

.Portal dos Sites

.publog

.Comunidade

Estou no Blog.com.pt
blogs SAPO

.subscrever feeds

RSSPosts

RSSComentários

RSSComentários do post