Sábado, 28 de Julho de 2007

VIDA MILITAR IV

 

Morris Janowitz, em O Soldado Profissional, 1960, contrapõe que, apesar de persistir a imagem de “uns mandam – outros obedecem”, “tal pode ter sido o ambiente da instituição militar no passado, mas o conceito espelha muito mal a organização militar contemporânea”.

            Janowitz, nesta obra fundamental da sociologia militar, avança cinco hipóteses como factores para analisar a profissão militar ao longo do século XX, que são bastante adaptáveis ao nosso objectivo:

- A autoridade organizacional, que se alterou de uma dominação autoritária para um outro processo, gerador de confiança, baseado na persuasão e no consenso grupal.

- Menor diferença na qualificação entre militares e civis, dado que as tarefas cada vez mais técnicas exigem dos profissionais militares orientações comuns às das elites civis.

- Modificação no recrutamento, havendo uma transformação social ocasionada por uma integração mais ampla e mais representativa da população como um todo.

- Modelos de carreira, fortemente padronizados

- Doutrinação política, tendencialmente criadora na profissão militar de uma atitude mais crítica em relação à liderança política civil.

            A nova doutrina acentua a importância da iniciativa e da inovação; o espírito militar é levado a moderar o ultra nacionalismo; acusado de exagerar a disciplina, o espírito militar passa a ter em conta as técnicas de relações humanas; considera a utilidade de adquirir aptidão crítica. Como resultado da cada vez maior complexidade e sofisticação da máquina de guerra, a organização militar acabou por se aproximar cada vez mais de certas características das grandes organizações civis. Tal, porém, não alterou a condição específica do militar profissional, que é um “perito em técnicas de guerra e no uso organizado da violência”. Um certo modo de vida e um sentimento de honra militar são quota-parte para a formação e prevalência de uma profissão bem individualizada.

            No que respeita à liderança entre os profissionais militares, Janowitz distingue entre “líderes heróicos”, que vivem na senda do tradicionalismo e da glória, e “administradores militares”, que executam a conduta racional da acção militar. E, citando Alfred Vagt na sua História do Militarismo, de 1937, evidencia igualmente a diferença entre “atitude militar”, “concentração fundamental de homens e materiais para a conquista de objectivos específicos de poder com a máxima eficiência”, e “atitude militarista”, que envolve “uma enorme quantidade de costumes, interesses, prestígio, acções e pensamento associados a exércitos e guerras, ultrapassando propósitos verdadeiramente militares”. Destaca ainda que, como em qualquer outra profissão, também nos militares se encontra conflito entre o “pensamento tradicional” e a “proficiência técnica”, verificando-se que o soldado profissional é geralmente conservador, mas acontecendo que a necessidade de especialistas para certas tarefas favorece a inovação e a evolução técnica.

            Janowitz defende a ideia de que a evolução tecnológica continuada, embora diminua a separação entre o militar e o civil, não transforma a organização militar numa espécie de empresa de engenharia. Se tal acontecesse, desapareceria a característica militar fundamental que consiste no “espírito de combate”, baseado em motivação psicológica que leva o homem a procurar sucesso sem dar prioridade à sua segurança pessoal. Apesar de aumentar a influência civil na instituição militar, esta não perdeu as suas características distintivas, atenta a necessidade de manter a prontidão para o combate e capacidades de resistência, garantindo a importância da organização e da autoridade militares. Nas instituições militares são especialmente poderosas as lealdades tradicionais, e é fundamento do espírito marcial uma disposição temerária para enfrentar o perigo. “É o espírito marcial que continua a dar à profissão militar a sua marca característica e a moldar até mesmo os seus administradores”.

            É certo que o aumento dos padrões de vida faz baixar a aceitação dos desconfortos da vida militar; e que o desenvolvimento cultural dos recrutados não facilita mais obediência cega. “Relações sociais, liderança pessoal, benefícios materiais, doutrinação ideológica e a justiça e o significado e os objectivos de guerra, tudo isso agora faz parte do moral militar.” 

 

(JANOWITZ, Morris – O Soldado Profissional. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1967.)     
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publicado por Zé Guita às 09:35
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