Terça-feira, 7 de Agosto de 2007

VIDA MILITAR VII

 

            Morris Janowitz defende que a profissão militar implica todo um estilo de vida muito próprio, cuja apertada regulamentação coloca em relevo a coesão grupal, a lealdade e o espírito marcial. A eficiente manutenção da doutrina neste sentido é facilitada pela vivência socialmente fechada dos militares, a qual ajudou a manter as características e valores que lhes são próprios, mesmo perante as mudanças tecnológicas e políticas que foram ocorrendo.

            Tal continuidade torna-se possível devido aos poderes auto-normativos das organizações militares sobre os seus membros, transcendendo em muito as normais condições de trabalho. Porém, embora persistam, as normas tradicionais de comportamento já não são tão efectivas como no passado, em virtude do aumento de contactos e relações com civis, da influência de novos modelos e do surgimento de novos papéis desempenhados por militares.

            Nas sociedades modernas, caracterizadas pela livre iniciativa, as remunerações monetárias dos militares profissionais não conseguem competir com as do sector privado, o que origina tensões. Daqui o surgimento de alteração possível nos compromissos para com a profissão, os quais se tornam mais dependentes de um estilo de vida e da crença na sua superioridade. As organizações militares assumem responsabilidades cada vez maiores sem a correspondente compensação; os profissionais militares, incluindo os de grande gabarito, ganham pouco face aos seus equivalentes civis; os benefícios marginais compensatórios para a vida dura dos militares são prejudicados (disponibilidades para o lazer, sistema de pensões, conceito de reforma, idade da reforma). Nada, porém, significa que a comunidade militar profissional tenha renunciado a manter a aspiração de um certo estilo de vida e a bater-se esforçadamente na defesa dos seus padrões.

            O estilo de vida dos militares profissionais inclui grande atenção a normas de etiqueta e cerimónia nas relações pessoais. Indivíduos que trabalham em ambiente de forte proximidade interessam-se pelos camaradas e desenvolvem “os conceitos de honra e de espírito marcial (que) estão fundamentados em rituais de companheirismo.” Parte destes rituais são um meio para controlar a ansiedade subjacente ao perigo de morte próprio da profissão, que é especial. “A concepção civil do militar como um brutamontes que usa palavrões é anacrónica... Talvez ainda seja correcto praguejar – na verdade, necessário – mas o oficial deve saber quando isto não é permissível.”

            A honra militar é um meio e é um fim, atendendo uma ampla diversidade de motivos pessoais e sociais, a que toda a profissão militar está obrigada O pouco tempo de permanência nas fileiras, o alargamento da base de recrutamento, as motivações carreiristas, as auto-críticas desgastantes, as pressões civis contribuem para enfraquecer e causar danos à importância da honra.

            O código de honra militar baseia-se em quatro componentes fundamentais:

- O cavalheirismo, não sendo admissível conduta injuriosa e infame num militar profissional; implica o tratamento correcto dos prisioneiros, a etiqueta social e a rejeição do lucro monetário como valor pessoal supremo.

- A fidelidade pessoal, assumindo a lealdade a uma posição formal de comando.

- A fraternidade, concretizada em intensa lealdade grupal.

- A busca da glória, prosseguindo realizações históricas, racionalizando sobre o interesse público.

            Entretanto, as tensões institucionais e sociais que têm surgido nos ambientes militares afectam também alguns aspectos da honra militar. Mas “numa sociedade democrática é totalmente impróprio que a honra seja o único, ou mesmo o mais importante, valor dos militares profissionais. Convém que ela seja combinada e condicionada ao prestígio público e ao reconhecimento popular. Aos militares devem ser concedidos suficiente prestígio e respeito que garantam um sentimento de auto-estima.

Muitos militares profissionais estão convictos de serem menos belicosos do que os seus equivalentes civis, sendo em grande número os que acreditam mesmo assumir o papel de verdadeiros guardiães nacionais, uma vez que dedicam a sua vida por inteiro ao serviço do país.           

       

(JANOWITZ, Morris – O Soldado Profissional. Rio de Janeiro: Edições GRD, 1967.)     

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publicado por Zé Guita às 11:32
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2 comentários:
De Túlio Hostílio a 7 de Agosto de 2007 às 17:18
foram publicadas no DAR, as leis orgânicas da GNR e PSP


De geninho rasca a 10 de Agosto de 2007 às 19:52
é só vida militar, vida militar!!!
isso nem ao menino jesus intressa!!!


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