Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

PERCEPÇÃO E EXPECTATIVAS FACE À CRIMINALIDADE

 

 Roché afirma e demonstra que “O sentimento de insegurança é um processo de leitura do mundo circundante. Apodera-se dos indivíduos como um síndroma de emoções - medo, raiva, ciúme - cristalizadas acerca do crime e dos seus autores. Como qualquer leitura, o sentimento de insegurança é redutor.” Antes de mais, ele mostra que não é necessário ter sido o próprio vítima ou ter tomado contacto directo com uma vítima, um primeiro elemento que tende a provar que não se trata de uma simples leitura da realidade mas de um modo pessoal de interpretação. ... Igualmente tem um contributo importante para o aumento de dimensão do sentimento de insegurança o facto de numerosos delitos não serem esclarecidos e os seus autores ficarem impunes, dando lugar a que se instale junto de muitos cidadãos o sentimento de terem pouco a esperar das forças públicas encarregadas de garantir a segurança.

            Estes importantes elementos mostram como um sentimento de insegurança se constrói, nos indivíduos, a partir de factos mas também em função do modo como se apresentam, da sua representação por uma interpretação que põe em jogo vários factores psico-sociais.

           ...

            Um dos aspectos que, certamente, muito contribui para gerar insegurança é o medo do crime. Na sequência deste juízo, e acompanhando o fruto de trabalhos de investigação sobre a matéria, tem vindo a ser evidenciado que a criminalidade e os problemas com ela relacionados se constituem como factos sociais da maior importância, originando fortes perturbações da ordem social e indo mesmo ao ponto de desenvolver formas estruturantes de pensar e de agir.

            Contributo muito válido para uma melhor compreensão dos motivos que estão na origem do aumento da insegurança objectiva e subjectiva em largas camadas da população portuguesa é o livro “Crime e Insegurança em Portugal”, do sociólogo Eduardo Viegas Ferreira, que passamos a citar: “O crime constitui, sem dúvida, um dos fenómenos contemporâneos que mais têm contribuído para um aumento dos níveis de ansiedade e de insegurança existentes na sociedade portuguesa. O que é curioso, no entanto, é a razão pela qual fenómenos tão ou mais perturbadores, como o desemprego, os acidentes rodoviários ou o aumento de doenças infecto-contagiosas, não tendem a induzir, quando comparados com o crime, níveis tão elevados de ansiedade e de insegurança. A criminalidade provoca, é certo, elevados prejuízos materiais e, fundamentalmente, consequências físicas e psicológicas que contribuem para uma acentuada redução dos níveis de qualidade de vida das pessoas. É que, para além dos danos materiais que provoca, o crime tende a fazer aumentar sentimentos de medo e de desconfiança que inviabilizam, por sua vez, a existência de valores e de práticas fundamentais de sociabilidade e de solidariedade social. No entanto, as mesmas consequências resultam invariavelmente de uma incapacidade física ou de uma situação prolongada de doença ou de desemprego.”

            Eduardo Ferreira acrescenta, como explicação para tal diferença, o facto de os crimes, ao contrário dos acidentes, não serem encarados como uma fatalidade, mas sim como agressões intoleráveis aos valores, às leis e normas em vigor na ordem social estabelecida, promovendo o caos e a desordem. Acentua ainda o referido autor que “As conjunturas marcadas por uma elevada instabilidade socioeconómica e cultural e, consequentemente, por incertezas quanto ao sentido da vida e do mundo, tal como ele existe, sempre provocaram, entre outras consequências, um maior desejo de segurança.” Encarando a intolerância ao crime como um dado adquirido, expectativas subsequentes são a repressão severa dos criminosos e a sua recuperação. Quando tais expectativas são frustradas, parece natural o aumento da insegurança. A este segue-se a atribuição de responsabilidades por múltiplos problemas sociais aos criminosos, que actuam impunemente, e aos sistemas de polícia e de justiça, que se revelam ineficazes. De qualquer modo, subsistem como promotores da insegurança quer a ocorrência de criminalidade quer a ocorrência de conjunturas socioeconómicas e culturais.

Excertos do estudo "Porquê a INSEGURANÇA? II".

Revista PELA LEI E PELA GREI, Jan/Mar 2000.

Autor Armando Carlos Alves.

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publicado por Zé Guita às 11:16
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4 comentários:
De ex-guita a 13 de Abril de 2008 às 13:08
Caro Zé Guita
Como é do conhecimento geral este governo(?) prepara-se para rever o RDM visando aplicá-lo também aos reformados e reservistas. Entretanto vai processando um coronel reformado da FAP por num blog criticar o funcionamento do Hospital da FAP. Independemente do dito oficial não gostar de nós, deveríamos apoiá-lo já que o nosso actual RD padece da mesma aberração e não vi até hoje nenhuma manisfestação contra ela. E já tem havido punições com base nesse pseudo RD que como é sabido repercutem-se nas pensões de reforma. Gostaria de ver os camaradas guitas pronunciarem-se sobre isto. Ou mais uma vez estarão á espera que alguém se lembre deles? Um abraço. Ex-Guita


De ex-guita a 13 de Abril de 2008 às 13:09
Caro Zé Guita
Como é do conhecimento geral este governo(?) prepara-se para rever o RDM visando aplicá-lo também aos reformados e reservistas. Entretanto vai processando um coronel reformado da FAP por num blog criticar o funcionamento do Hospital da FAP. Independemente do dito oficial não gostar de nós, deveríamos apoiá-lo já que o nosso actual RD padece da mesma aberração e não vi até hoje nenhuma manisfestação contra ela. E já tem havido punições com base nesse pseudo RD que como é sabido repercutem-se nas pensões de reforma. Gostaria de ver os camaradas guitas pronunciarem-se sobre isto. Ou mais uma vez estarão á espera que alguém se lembre deles? Um abraço. Ex-Guita


De Paulo Sempre a 26 de Abril de 2008 às 12:38
E não se "levantam" as vozes fardadas?


De Planeta Gifs e Jogos a 2 de Maio de 2008 às 17:38
Olá,
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