Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

Tempo de Vésperas V

 

     Sem abordar desde já a sequência dos pontos antes enumerados, há um aspecto que se me afigura prioritário tratar. Lembro que consta ter o MAI encomendado a uma empresa multinacional de consultadoria um “receituário” de soluções concretas no sentido de reformar as FSS portuguesas, certamente na sequência do Estudo do Instituto de Relações Internacionais.

     Ainda aqui se me impõe o exemplo de reforma no caso belga, analisado por Van Outrive. Segundo este especialista, a técnica de gestão de empresas foi aplicada à polícia em termos muito pouco originais, apesar de a ideia de gestão não ser nova neste domínio. Ao descrever a história do processo, cuja infiltração haverá tido início em 1985, refere ter criticado vivamente a tendência expressa numa auditoria: “A instituição policial é dificilmente comparável aos outros serviços públicos, por maioria de razão a uma estrutura económica como uma empresa comercial. O seu modo de funcionamento escapa em grande parte a uma lógica económica e tecnocrática (...) Tudo parece passar-se como se bastasse melhorar o aparelho, reorganizá-lo para que inelutavelmente os problemas de delinquência, de violência e de insegurança sejam resolvidos. Uma racionalização deste tipo é perigosa, porque é errónea e pode induzir decepções muito mais graves e danosas que uma aproximação moderada às capacidades do sistema.” E concluiu tratar-se de uma análise totalmente a-histórica, que não mencionava fontes nem referia pesquisas anteriormente conduzidas.

     Relata também que a partir do início dos anos noventa a aproximação gestionária retomou alento, sobretudo na Gendarmeria desmilitarizada e descreve como “Uma análise da desmilitarização da Gendarmeria estabelece ligação entre a introdução da polícia comunitária e a orientação gestionária”. Tratou-se de uma visão economicista, levando a transferir do sector privado para a Gendarmeria a tendência da orientação para os clientes e de qualidade. Foi, então, uma aproximação empresarial. “ Não foram tidos em conta o lugar e a função da Gendarmeria na sociedade belga e não foi conduzida qualquer discussão fundamental acerca do funcionamento do pessoal no terreno nem a respeito da cultura existente. Valores e interesses que estão em contradição com a nova cultura organizacional são considerados como problemas a resolver pela gestão. Apenas se obtêm mudanças de acento e não mudanças fundamentais”.  

    O professor Van Outrive descreve seguidamente a evolução verificada no sentido da necessidade de uma política policial e de um modelo de gestão mais adaptado à polícia; refere os planos de segurança inspirados pela gestão; aponta os modelos de gestão em voga e faz a sua análise crítica; e por fim indica um outro modelo, que implica uma concepção basilar de administração da justiça e da polícia e que deve ser participativo e aberto. Indica finalmente os factores e os resultados a ter em atenção. Como grande linha de avaliação, recomenda que não basta interrogar o pessoal da polícia mas há que implicar outras instâncias.

     O mesmo autor analisa em seguida a medida dos aspectos quantitativos e qualitativos das actividades policiais e aponta como são subestimadas outras actividades para além da luta anti-crime. E acaba por colocar em relevo a ideia de que “ Tem-se pouco a noção de que as actividades policiais dependem enormemente de acontecimentos exteriores, são muitas vezes imprevisíveis e podem absorver enormemente horas/homens.”

    Perante quadro tão complexo, sem colocar em dúvida a competência técnica dos consultores de gestão no caso português, a expectativa é grande, as dúvidas “chovem” e aqui o Zé Guita, navegante num mar de incertezas, interroga-se: será que os consultores de gestão têm “sensibilidade” bastante para “interiorizar” em termos aproximados o ambiente em questão? E será que apenas virá deles uma visão parcial de soluções para os problemas, a complementar com outras visões multilaterais e pluridisciplinares? Aos decisores cabe cuidadosa ponderação.             

sinto-me: expectante!
música: concernente, conjuntura
publicado por Zé Guita às 18:01
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