Terça-feira, 30 de Junho de 2009

TRADIÇÃO E RESTRUTURAÇÃO - VI

Ficam clarificadas algumas linhas estatutárias fundamentais em que se baseiam a prática e a tradição dos suboficiais de carreira (entre nós ainda chamados sargentos) da GN de França, sendo ela desde sempre o modelo matricial do corpo militar de polícia GNR. E esta tem vindo a consolidar uma cultura organizacional cada vez mais caracterizada pela especificidade gendármica.

Parece oportuno auscultar algumas reacções no interior da Guarda ao boato sobre a admissão de sargentos das FA na Guarda mantendo o posto. Uma amostra debilmente estruturada de comentários da “caserna”, colhida na internet e excluindo outros menos cordatos, que deve ser filtrada com bom senso, releva alguns aspectos:

- “Segundo consta, foi uma proposta de alteração do EMGNR que apareceu, após o encerramento das negociações com as Associações estarem finalizadas no MAI. Segundo parece, a proposta partiu do CG/GNR

Segundo a teoria subjacente a esta proposta (…) os Sargentos da GNR, por virem da carreira de Guardas têm muitos vícios e pretende-se assim acabar por fazer uma limpeza gradual.

Consta ainda que os Sargentos da GNR são vistos pelos Srs. Oficiais da Academia como inimigos, por serem um entrave à hegemonia destes.”

- “O instruendo que ingressar no curso de formação de sargentos, ao abrigo do nº 3 do artigo 248º, mantém o posto durante o curso e após concluir o mesmo com aproveitamento, considerando-se graduado nesse posto até que lhe compita a promoção no seu quadro.

O instruendo do curso de formação de sargentos, dos quadros da Guarda, é graduado no posto de furriel, nos termos definidos pelo regulamento do curso, sendo desgraduado se for excluído nos termos do artigo 251º.”

Sem prejuízo do disposto no nº 3 do artigo 68º, podem ainda candidatar-se à frequência dos cursos de formação de sargentos os militares das Forças Armadas que tenham sido admitidos ao abrigo do regime de contrato como sargentos e tenham permanecido naquele regime, pelo menos durante três anos e sejam autorizados a concorrer e a ser admitidos na Guarda pelo respectivo chefe do estado-maior, se na altura do concurso estiverem ao serviço.”

- “Como em várias instituições em Portugal e por esse mundo fora (…) curso de praças, curso de sargentos, curso de oficiais. Abandonem os tabus…”

- “Eu estive 3 anos e meio, no Exército (onde quando saí em 2001 tinha o posto de 2º Sar), ingressando directamente no CFP da GNR. Quando terminei o curso e foi estagiar, acabei por conhecer um mundo completamente diferente, onde constatei que um Sold à linha (alguns apenas com o ensino primário), tinham muita mais responsabilidade sobre os ombros que qualquer Oficial do exército que eu tenha conhecido. Razão pela qual admito que quando eu vim para a Guarda, de modo algum estava preparado para continuar com o posto de Sargento (só se fosse para trabalhar nalguma "chafarica"), e ir comandar um Posto territorial.”

- “também fui Sargento no Exército. Se cumpri as minhas obrigações enquanto comandei lá homens? Penso que sim... (..) Durante quase 5 anitos conheci muita gente, vários locais, aprendi muito... No entanto, no que diz respeito a passar para a Guarda com a mesma patente... aí discordo! São instituições completamente distintas.”

- “apanhar um Sargento do Exército como comandante de posto… Que percebe ele daquilo? Eu também fui Sargento no Exército, será que também vou ser Cmdt de Pt?”

- “será que eu também posso regressar ao Exército?”

- “e quem foi sargento no Exército e é guarda na G.N.R vai ser promovido???”

- “Hilariante”, “ridículo”, “absurdo”, “aberração”, “impensável”, “inaceitável”…

- “Obviamente que mais vale um soldado da Guarda que (…) sargentos da tropa.”

- “Quem faz esta tropa para mim são os Sargentos, e conforme é a música deles é conforme dançam os militares do Posto.”

- “guarda todos devem ser, para conhecer a realidade da rua.”

- “para funções de comando as pessoas devem bater primeiro a calçada... para perceber os militares, os civis e para serem ainda mais capazes.”

- “muitos desses senhores concorrem à GNR, não entram, depois dentro do Exército chegam a sargentos, (…) e depois vêm para a GNR como sargentos passar à frente de quem cá anda a sofrer na pele há uma data de tempo.”

- “cortam as pernas a quem quer progredir dentro da instituição e vai criar revolta.”

- “em vez de evoluir estamos a regredir. Onde já se viu admitir sargentos sem qualquer noção do que é a Guarda e o serviço policial? Vai se perder toda a mais valia que se adquiria ao passar por alguns anos e escalões ao longo da carreira na Guarda até chegar a sargento e aí sim dar algum retorno como comandante. Vai dar origem a que cmdts sem qualquer experiência ou capacidade técnica sejam responsáveis pelo comando de homens e gestão de um posto territorial e toda a responsabilidade e problemas que dai advêm.”

- “um grande descontentamento na Guarda em geral, em particular na categoria profissional de guardas, em que os Sargentos têm um papel extremamente importante para a motivação destes, desmotivá-los mais era meio caminho andado para que houvesse uma grande revolução na Instituição”

- “Se agora existe desmotivação... nem quero imaginar se isto for aprovado.”

- “Todos estamos a ver o alvoroço que isto está a dar.”

- “não os reconheço como meus superiores hierárquicos.”

- “Nunca ia aceitar ser comandado por um sargento da tropa.”

- “vai criar mau ambiente e aumentar ainda mais o excesso de militarismo.”

- “Há-de acontecer ter dois tenrinhos no comando.” (Pt e Dt)

       Como ficou salientado, são vozes anónimas, vindas do fundo da “caserna” para o espaço da realidade virtual. Devem ser adequadamente filtradas; mas não convém que sejam ignoradas.

sinto-me: preocupado
publicado por Zé Guita às 18:44
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