Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

OS METAIS TAMBÉM SE CANSAM

Numa conjuntura de mudança acelerada a caminho de uma revolução civilizacional, a instabilidade e a incerteza tornam-se avassaladoras. E as revoluções destroem quase tudo, inclusive as organizações, sobretudo as mais distraídas e que se mantenham passivas face ao processo.

Neste quadro, também a Guarda está ameaçada: ideologia e práticas negacionistas, civilismo, militarismo, competição corporativista, falhas no recrutamento e na selecção, insuficiências na socialização e no controlo social, sobrecarga de trabalho, pessimismo, desmotivação, quebra de coesão interna... Tudo gerando factores de vulnerabilidade que podem talhar brechas no espírito de corpo, abrindo caminhos para um processo de desagregação institucional.

As crises são recorrentes e – melhor ou pior - sempre se resolvem, mas desta vez a tensão é grande e desenvolve-se numa conjuntura de grave crise geral. Há que entendê-la e desenvolver esforços equilibrados para uma boa resolução no tocante à sobrevivência da Instituição Guarda. E todos são poucos para colaborar.

Reflectindo sobre tudo isto, ocorre ser oportuno elaborar um estudo relativo ao que se esteja a passar relacionado com stresse organizacional e pessoal e seus reflexos, procurando identificar e sistematizar ideias, sugestões, factos, pistas, trabalhos/bibliografia sobre o tema, de modo a estimular investigação mais sólida para suporte de políticas e estratégias de enquadramento e de gestão, incluindo o diagnóstico de situações e a tomada medidas em tempo oportuno. O presente esboço não pretende mais do que tentar uma síntese estimulante e orientadora para empreendimentos de carácter científico que largamente se justificam.

            De um modo geral na função polícia e em particular na GNR, a prolongada insuficiência de pessoal, sobretudo entre os patrulheiros de muitos postos territoriais, bastante provocada pelo empenhamento em novas missões sem o correspondente aumento de efectivo, origina forte sobrecarga de trabalho que reduz drasticamente as folgas para assistência à família e os necessários períodos de descanso para recuperação individual; acresce, em muitos casos, verificar-se em simultâneo que o serviço envolve um agravamento da quantidade e da qualidade da criminalidade que se conjuga com sentimentos de falta de apoio legislativo e judicial, implicando prolongado desgaste físico e psicológico; acontece ainda haver influência de vários factores de instabilidade, ligados à chamada reestruturação em curso, como grandes alterações no dispositivo a extinguir e criar unidades, transferências de local de trabalho, colocações inconvenientes para a família, atrasos em promoções, desequilíbrios remuneratórios, tudo ocasionando um clima de incerteza.

            A Guarda enquanto instituição desde há muito tem revelado capacidade para superar sucessivas situações de sobrecarga, sacrifício, incerteza e instabilidade. As instituições não existem sem pessoas e a Guarda é uma instituição que tem vindo a evoluir há mais de duzentos anos, acompanhando a sociedade de que é parte. Formada por pessoas organizadas numa profissão, encontra-se condicionada pelos quadros legais que a enformam, pela legitimação social e pela capacidade de empenhamento dos seus recursos humanos. Nestes últimos tempos tem vindo a tornar-se preocupante, porventura sinal de alerta, o número inusitado de suicídios entre militares da Organização. Questiona-se: quais as causas? Num imediatismo interessado, superficial na argumentação, associações profissionais passam para a comunicação social, que amplia, a ideia de que “não têm dúvidas que a «pressão» que se vive na instituição e a «desumanização» com que os militares são tratados pelas hierarquias estão a contribuir para o problema”. (Gina Pereira, JN de 10OUT09)

            Entre as hipóteses de explicação mais urgentes a investigar coloca-se a da prolongada sobrecarga de trabalho, possível causadora de fadiga, entendida esta como resultante de trabalho excessivo e penoso. Para avaliar o que se passa com os recursos humanos, podemos, forçando um pouco a nota, recorrer ao modo como a Física encara a mecânica dos materiais, estudando aspectos relacionados com os fenómenos de instabilidade, fadiga e fluência de materiais. A analogia permite admitir que também às organizações e aos seus recursos humanos – metal precioso - é aplicável a lei da fadiga dos metais, tornando evidente que os poderes de enquadramento têm que encarar a cedência à tensão que ultrapassa as suas capacidades. Ao atingir os poderes de enquadramento, as organizações e os profissionais, esta tensão que provoca o cansaço das estruturas metálicas deve, portanto, ser tida em conta também em relação aos agentes de autoridade que exercem a função polícia, por maioria de razão àqueles que têm o estatuto de dupla servidão, militar e policial, como é o caso dos profissionais da Guarda.

 

sinto-me: inquieto
publicado por Zé Guita às 12:02
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