Terça-feira, 16 de Março de 2010

FOLHEANDO - IX

O sonho da Mensagem de Fernando Pessoa

         Pascoaes e Pessoa relacionam-se nas suas aventuras poético-espirituais, ora dialogando ora confrontando-se sobre esta temática, e Eduardo Lourenço sugere mesmo quanto Pessoa deve a Pascoaes. Diz o ensaísta: “Em última análise, a aventura de Pessoa é uma tentativa – bem lograda, mas não de todo triunfante – para reestruturar em termos adequados ao seu génio próprio e a um tempo de tecnicidade cosmopolita, o misticismo sem sombra de má consciência poética nem linguística, do autor inspirado de Regresso ao Paraíso e Marânus”. Eduardo Lourenço considera presente em Pessoa a imagem da pátria subjacente na poética profetizante de Pascoaes, constituindo-se como um desafio para o autor de Mensagem. Segundo o ensaísta, o anúncio do super-Camões significa apenas que a visão simbólica de Pascoaes e do Saudosismo deveria ser superada por uma outra, elevando-a à consciência de si mesma, mas conservando-lhe a intuição de base, o núcleo neoplatónico. Para Eduardo Lourenço, Pascoaes e Pessoa, às portas do século XX, imaginaram um destino para Portugal num tempo português de tipo novo, intemporal.

Toda a obra de Fernando Pessoa é, porém, comparável àquele deus bifronte … com uma face que olha o passado e outra que olha para o futuro.”…

Verdadeira imagem de Portugal, com a carne da História sublimada na auréola do mito, a Mensagem constitui, nos tempos modernos, uma das raras possibilidades de sobrevivência da epopeia em verso.” (David Mourão Ferreira – Nota Prévia. In Mensagem. Lisboa: Ática, 1972)

Fernando Pessoa tinha do mundo uma visão mítica e a sua mensagem é constituída por fragmentos, relâmpagos de um espírito inquieto, que teve do professor Prado Coelho a seguinte caracterização: “...os estados poéticos de consciência são autocontraditórios e instáveis, implicando por isso a consciência de não ser absolutamente consciente: a consciência de se ser sempre, de algum modo, inconsciente. A dialéctica da consciência-inconsciência percorre toda a poesia de Pessoa”. António José Saraiva refere-se a “...duas e opostas inspirações filosóficas: o positivismo, e um certo transcendentalismo (ou panteísmo?) ostensivamente heterodoxo, cuja principal cristalização se encontra em Sampaio Bruno e que, aparentemente, se estende a Junqueiro, Pascoais, Raul Brandão, Leonardo Coimbra e Fernando Pessoa”.

           O panteísmo é utilizável em qualquer epopeia e também Pessoa o usa de modo transcendental, como grande base da sua mensagem filosófica. Por um lado, a Natureza é a imagem visível do Universo invisível, esse Longe que a Ciência, apenas, vislumbra. Por outro lado, o Mar, que é a Distância visível de um Além invisível, gera o Sonho do Infante e o Sonho é o primeiro passo da Ciência. Estas duas linhas, divergentes na origem, embora correspondentes, encontram-se no invisível de uma Aurora que não amanhece, porque esconde algo misterioso. De Assombro em Assombro chega-se ao Mistério e aí explode toda a potencialidade desse panteísmo transcendentalista e qualquer que seja a sua expressão - Acaso, Sorte, Destino ou Vontade - o resultado é sempre o mesmo: a Hora que, ao chegar, revelará a Verdade. Daí ao Fim é um passo que Pessoa nunca dará, limitando-se ao misticismo idealista da Mensagem e é neste que se inicia o conteúdo da sua mensagem. De facto, o idealismo de Pessoa assenta no sebastianismo e no saudosismo, o que lhe dá um tom bem lusíada, agora que ambos se fundem e confundem, conforme a Prece:

 

 

Senhor, a noite veio e a alma é vil / … Restam-nos hoje, no silêncio hostil, / O mar universal e a saudade.

E o poeta, possuído de saudade e de esperança, almeja em O Desejado:

Ergue-te do fundo de não-seres / Para teu novo fado! / Vem, Galaaz com pátria.

Sendo difícil resistir às contradições e aos conflitos que vão surgindo, o idealismo de Pessoa desgasta-se, o misticismo esmorece perante o Nevoeiro:

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, / Define com perfil e ser / este fulgor baço da terra / que é Portugal a entristecer - / Brilho sem luz e sem arder, / Como o que o fogo-fátuo encerra. / Ninguém sabe que coisa quer, / Ninguém conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem. / (Que ânsia distante perto chorará?) / Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro... / É a hora!

Certamente que “a hora” significa o fim do misticismo idealista e a passagem à acção, mas não é o fim da mensagem filosófica. Da exaltação do sonho, Pessoa cai na realidade desse mesmo sonho e descobre aí o impossível de sonhar. O resultado inevitável é o pessimismo que exprime em Os Colombos, O Quinto Império e Tormenta:

Outros haverão de ter / O que houvermos de perder.

Triste de quem vive em casa, / Contente com o seu lar.

Que jaz no abismo sob o mar que se ergue? / Nós, Portugal, o poder ser.

Porém, na Mensagem  não há lugar para o cepticismo radical. O poeta cai no pessimismo por uma questão de lógica das consequências, mas não se detém. A própria mensagem filosófica nos prova isto em Nevoeiro:

Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro.

O poeta escreve, também, em Noite:

É a busca de quem somos, na distância / De nós; e, em febre de ânsia, / A Deus as mãos alçamos.

Esta postura leva-nos numa direcção oposta a qualquer radicalismo. O que a mensagem filosófica nos transmite é um cepticismo que se identifica, em parte, com o fideísmo e, em parte, com o relativismo, em O das Quinas.

Os Deuses vendem quando dão, / Compra-se a glória com desgraça. / Ai dos felizes, porque são / Só o que passa.

Aqui, é o relativismo que está em evidência. Nestoutra, em O Conde D. Henrique, é o fideísmo:

Todo o começo é involuntário. / Deus é o agente, / O herói a si assiste, vário / E inconsciente.

Chegou-se ao fim, não ao fim do FIM. Uma epopeia jamais perece. Do mesmo modo que Os Lusíadas são a épica da Épica histórica portuguesa, a Mensagem é a épica da Mística histórica de Portugal e a sua mensagem viverá para sempre. É imortal.

Resta sintetizar o que se escreveu e a síntese é a própria alma dessa mensagem filosófica. E qual é ela? Responde Pessoa em Ocidente:

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal / A mão que ergueu o facho que luziu, / Foi Deus a alma e o corpo de Portugal / Da mão que o conduziu.

O facho que luziu” é a mensagem e essa alma que se manifesta em luz e pela luz é a alma de Portugal, alma mística, alma idealista, alma cheia de nobreza, coragem, tenacidade e fé.

Essa é, também, a alma da mensagem filosófica de Fernando Pessoa.  (Monteiro, Luís Filipe Barata, in ACTAS DO 2º CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS PESSOANOS, Centro de Estudos Pessoanos, Porto, 1985)

 

 

 

publicado por Zé Guita às 12:26
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