Domingo, 25 de Março de 2007

RIBALTA

 

GNR: TENSÕES, INSTABILIDADE E EQUILÍBRIO

 

No teatro da actual vida portuguesa, a reestruturação das Forças de Segurança Interna (FS) está sob os holofotes da ribalta e é bem visível para a assistência que de entre os actores se nota forte protagonismo para a GNR. Por um lado, porque é um actor com longo historial, uma instituição militar e policial com mais de duzentos anos; por outro lado, porque não está parada no tempo, tem de acompanhar a modernidade, como aliás sempre tem feito. Dá também nas vistas o facto de a sua natureza militar ser incómoda para alguns movimentos ideológicos, anti-militaristas, pacifistas, sindicalistas, relativistas, individualistas, neo-liberais, etc., para a delinquência em geral e para a corrupção em particular, aos quais interessa um Estado quanto mais fraco melhor para ser mais fácil viver em “roda livre”.

O Estado, sociedade perfeita, politicamente organizada, para subsistir não pode deixar de garantir o bem-estar, a justiça e a segurança. Esta exige a existência de forças armadas de defesa para fazer a guerra contra ameaças externas e de forças de segurança, para lutar pela paz pública contra ameaças no interior. E quer a defesa quer a segurança interna não podem assentar apenas em forças paralisáveis por uma greve. Para obstar a este inconveniente existe a condição militar. 

 

Sendo uma instituição militar e policial, a GNR é “uma ideia de obra ou de empresa que se realiza e dura no meio social, mediante um poder que a realiza e havendo entre os indivíduos que formam o meio social manifestações de comunhão dirigidas pelos órgãos de poder e reguladas por processos.” Atenta a sua especificidade gendármica, a Guarda tem um passado que se caracteriza por forte coesão social, sendo timbre dos seus membros a intransigente defesa institucional.  

            Por que a Guarda não está parada e tem procurado acompanhar a mudança social acelerada em curso, têm vindo a avolumar-se alguns grandes dilemas, geradores de tensões – como sejam “tradição/modernidade”, “militarização/civilinização”, “polivalência/especialização” – e algumas situações indutoras de instabilidade interna – a integração da Brigada de Trânsito nos anos setenta; a agitação do PREC; a integração da Brigada Fiscal nos anos noventa; os desafios do SEPNA e da Investigação Criminal; a criação do GIPS; a projecção de forças para o exterior  – tudo numa sequência cujas dificuldades tem conseguido ultrapassar, mas que têm deixado algumas sequelas originadas ou facilitadas por tais tensões e instabilidade.

            A Guarda, de há umas dezenas de anos a esta parte, tem estado em permanente mudança. Mas esta tem sentidos diversos. É claro que o peso temporal e os ritmos da mudança são muito diferentes ao nível da Instituição e no sentir dos seus elementos a nível pessoal: uma ou duas dezenas de anos na vida da Instituição pouco pesam; enquanto que para um guarda vinte anos é uma vida profissional quase por inteiro.              A integração institucional não acabada de alguns elementos a todos os níveis e a instabilidade causada pela mudança acelerada em vários sectores deram lugar a muitas incertezas e ao desvio da coesão institucional manifestado por alguns indivíduos reforçados por certas pressões vindas do exterior, autênticos outsiders, descontentes com a sua situação e defensores da civilinização ou mesmo da fusão com o corpo civil de polícia.

            A Instituição e os seus elementos mais tradicionalistas não tiveram tempo para dar resposta adequada a esta minoria muito activa, que acabou por conseguir ter ecos no exterior. Podemos colocar como hipótese que, apesar das boas intenções, tenham pecado por excesso de confiança a observação participante interna e por desconhecimento da cultura organizacional e visões comprometidas com excesso civilista a observação externa.

            A GNR tem necessidade de equilibrar zelosamente a tradição e a modernidade; de manter cuidado equilíbrio entre a polivalência e a especialização; e ainda de recusar o militarismo enquanto perversão e precaver-se do civilismo, vector de extinção.

            É fácil prever que, com a reestruturação em marcha, vem aí uma porção de “embrulhadas”, instabilidade e uma montanha de sarilhos. Como de costume, as facturas mais pesadas irão cair sobre os mais fracos, pelo que há que cuidar da sua defesa.

            Será bom lembrar que, não sendo a primeira crise a enfrentar, se impõe dela uma gestão muito cuidada. Embora acreditando na moderna gestão empresarial, o certo é que a GNR, instituição, organização pública, profissão, não é uma empresa normal, tem uma especificidade própria. Mais do que uma gestão empresarial em contra-relógio, fazem falta estudos sociológicos isentos e em profundidade. Aqui ficam apontamentos para alguns.

sinto-me: a ver claro, mas preocupado.
publicado por Zé Guita às 22:36
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