A prevalência da profissão militar baseia-se na eterna existência de interesses humanos em conflito e pressupõe a eventualidade de emprego da força para defesa desses interesses. O facto de a mudança acelerada implicar novas formas de exercer a violência bélica e procurar recorrer cada vez mais a meios pacíficos para resolução de conflitos não elimina a circunstância do recurso às armas como fenómeno permanente. Acompanhando Adriano Moreira, aqui se encontra justificação para considerar que as forças militares, ainda que de nova invenção, continuam indispensáveis.
Samuel Huntington coloca em destaque o facto de a ética militar ter em consideração que conflitos e violência têm profundas raízes na natureza biológica e psicológica do ser humano; refere a imagem essencial do homem de Hobbes e cita Clausewitz – “A guerra é a província da incerteza”; clarifica ao afirmar que a profissão militar é organizada e disciplinada pelos Estados em competição, acontecendo que os militares enfatizam a importância do grupo contra o individualismo; e defende que a ética militar é essencialmente antiindividualista e de espírito basicamente corporativista.
Sobre a visão dos militares profissionais relativa a uma política nacional, Huntington postula que estes consideram o Estado como a unidade básica da organização política; salientam a natureza contínua e a magnitude das ameaças à segurança militar do Estado; são favoráveis à manutenção de forças militares fortes em prontidão; e resistem a envolvimentos bélicos precipitados, razão pela qual os mesmos militares contribuem para formular a política do Estado – exclusiva do poder político - com “uma voz cautelosa, conservadora e restringente”. “A tendência do político civil é cortejar as boas graças do público através de cortes orçamentais no sector dos armamentos, ao mesmo tempo que preconiza uma política externa aventurosa. O militar opõe-se a ambas essas tendências, pois a ética militar traça uma nítida distinção entre poder armado e belicosidade, entre Estado militar e Estado guerreiro. O primeiro corporifica as virtudes militares do poder ordenado: disciplina, hierarquia, contenção e firmeza. O segundo caracteriza-se por euforia e entusiasmo descontrolados e irresponsáveis e também pelo amor à violência, à glória e à aventura. (…) Para o militar profissional (…) este tipo de mentalidade tem poucos atractivos.”