O sonho da Mensagem de Fernando Pessoa
Pascoaes e Pessoa relacionam-se nas suas aventuras poético-espirituais, ora dialogando ora confrontando-se sobre esta temática, e Eduardo Lourenço sugere mesmo quanto Pessoa deve a Pascoaes. Diz o ensaísta: “Em última análise, a aventura de Pessoa é uma tentativa – bem lograda, mas não de todo triunfante – para reestruturar em termos adequados ao seu génio próprio e a um tempo de tecnicidade cosmopolita, o misticismo sem sombra de má consciência poética nem linguística, do autor inspirado de Regresso ao Paraíso e Marânus”. Eduardo Lourenço considera presente em Pessoa a imagem da pátria subjacente na poética profetizante de Pascoaes, constituindo-se como um desafio para o autor de Mensagem. Segundo o ensaísta, o anúncio do super-Camões significa apenas que a visão simbólica de Pascoaes e do Saudosismo deveria ser superada por uma outra, elevando-a à consciência de si mesma, mas conservando-lhe a intuição de base, o núcleo neoplatónico. Para Eduardo Lourenço, Pascoaes e Pessoa, às portas do século XX, imaginaram um destino para Portugal num tempo português de tipo novo, intemporal.
“Toda a obra de Fernando Pessoa é, porém, comparável àquele deus bifronte … com uma face que olha o passado e outra que olha para o futuro.”…
“Verdadeira imagem de Portugal, com a carne da História sublimada na auréola do mito, a Mensagem constitui, nos tempos modernos, uma das raras possibilidades de sobrevivência da epopeia em verso.” (David Mourão Ferreira – Nota Prévia. In Mensagem. Lisboa: Ática, 1972)
Fernando Pessoa tinha do mundo uma visão mítica e a sua mensagem é constituída por fragmentos, relâmpagos de um espírito inquieto, que teve do professor Prado Coelho a seguinte caracterização: “...os estados poéticos de consciência são autocontraditórios e instáveis, implicando por isso a consciência de não ser absolutamente consciente: a consciência de se ser sempre, de algum modo, inconsciente. A dialéctica da consciência-inconsciência percorre toda a poesia de Pessoa”. António José Saraiva refere-se a “...duas e opostas inspirações filosóficas: o positivismo, e um certo transcendentalismo (ou panteísmo?) ostensivamente heterodoxo, cuja principal cristalização se encontra em Sampaio Bruno e que, aparentemente, se estende a Junqueiro, Pascoais, Raul Brandão, Leonardo Coimbra e Fernando Pessoa”.
Senhor, a noite veio e a alma é vil / … Restam-nos hoje, no silêncio hostil, / O mar universal e a saudade.
E o poeta, possuído de saudade e de esperança, almeja em O Desejado:
Ergue-te do fundo de não-seres / Para teu novo fado! / Vem, Galaaz com pátria.
Sendo difícil resistir às contradições e aos conflitos que vão surgindo, o idealismo de Pessoa desgasta-se, o misticismo esmorece perante o Nevoeiro:
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, / Define com perfil e ser / este fulgor baço da terra / que é Portugal a entristecer - / Brilho sem luz e sem arder, / Como o que o fogo-fátuo encerra. / Ninguém sabe que coisa quer, / Ninguém conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem. / (Que ânsia distante perto chorará?) / Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro... / É a hora!
Certamente que “a hora” significa o fim do misticismo idealista e a passagem à acção, mas não é o fim da mensagem filosófica. Da exaltação do sonho, Pessoa cai na realidade desse mesmo sonho e descobre aí o impossível de sonhar. O resultado inevitável é o pessimismo que exprime em Os Colombos, O Quinto Império e Tormenta:
Outros haverão de ter / O que houvermos de perder.
Triste de quem vive em casa, / Contente com o seu lar.
Que jaz no abismo sob o mar que se ergue? / Nós, Portugal, o poder ser.
Porém, na Mensagem não há lugar para o cepticismo radical. O poeta cai no pessimismo por uma questão de lógica das consequências, mas não se detém. A própria mensagem filosófica nos prova isto em Nevoeiro:
Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro.
O poeta escreve, também, em Noite:
É a busca de quem somos, na distância / De nós; e, em febre de ânsia, / A Deus as mãos alçamos.
Esta postura leva-nos numa direcção oposta a qualquer radicalismo. O que a mensagem filosófica nos transmite é um cepticismo que se identifica, em parte, com o fideísmo e, em parte, com o relativismo, em O das Quinas.
Os Deuses vendem quando dão, / Compra-se a glória com desgraça. / Ai dos felizes, porque são / Só o que passa.
Aqui, é o relativismo que está em evidência. Nestoutra, em O Conde D. Henrique, é o fideísmo:
Todo o começo é involuntário. / Deus é o agente, / O herói a si assiste, vário / E inconsciente.
Chegou-se ao fim, não ao fim do FIM. Uma epopeia jamais perece. Do mesmo modo que Os Lusíadas são a épica da Épica histórica portuguesa, a Mensagem é a épica da Mística histórica de Portugal e a sua mensagem viverá para sempre. É imortal.
Resta sintetizar o que se escreveu e a síntese é a própria alma dessa mensagem filosófica. E qual é ela? Responde Pessoa em Ocidente:
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal / A mão que ergueu o facho que luziu, / Foi Deus a alma e o corpo de Portugal / Da mão que o conduziu.
“O facho que luziu” é a mensagem e essa alma que se manifesta em luz e pela luz é a alma de Portugal, alma mística, alma idealista, alma cheia de nobreza, coragem, tenacidade e fé.
Essa é, também, a alma da mensagem filosófica de Fernando Pessoa. (Monteiro, Luís Filipe Barata, in ACTAS DO 2º CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS PESSOANOS, Centro de Estudos Pessoanos, Porto, 1985)
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